Há cinquenta anos, a humanidade vivia dentro dos limites da Terra. Desde então, nossa demanda por recursos explodiu. Contudo, este ritmo é insustentável. Os recursos naturais são finitos. A mudança climática e a poluição intensificam a escassez, como a da água potável. Sem água, a vida e a economia ficam inviáveis. A transição energética é crucial. Devemos substituir combustíveis fósseis por energias renováveis. Entretanto, essa mudança exige ir além da simples troca de fontes. Precisamos alcançar o zero líquido dentro dos limites planetários. Para isso, é fundamental reutilizar e reciclar os minerais essenciais para as tecnologias limpas.
No Brasil, em 2025, o Dia da Sobrecarga da Terra ocorreu em 24 de julho. Em 1971, foi em 25 de dezembro. Esse deslocamento temporal é alarmante. Há meio século, necessitávamos de pouco mais de um planeta para nos sustentar. Atualmente, precisamos de 1,75 Terras. Claramente, não dispomos desse excedente.
Um relatório da ONU de maio de 2023 expôs uma dura realidade. O PIB global dobrou desde 1970. Em contrapartida, o esgotamento de recursos triplicou. As consequências para o meio ambiente natural são desastrosas. Além disso, o consumo de recursos varia significativamente entre os países. Singapura, por exemplo, apresenta um déficit de biocapacidade superior a 6.000%. Os Emirados Árabes Unidos também consomem muito além de sua capacidade, com um déficit de 1.500%.
Países europeus também excedem seu consumo. A Bélgica lidera com um déficit de 490%. O Reino Unido registra 240%, e os EUA, 110%. Por outro lado, Bahamas, Brasil, Finlândia e Canadá consomem dentro de seus limites de recursos. É importante considerar o tamanho e a densidade populacional dos países. Contudo, a principal questão reside na não contabilização da destruição dos ativos ecológicos. Desde a conferência de Bretton Woods em 1944, o foco tem sido o Produto Interno Bruto (PIB). O PIB surgiu como ferramenta para reconstruir infraestruturas após a Segunda Guerra Mundial.
O PIB cumpriu um propósito importante na reconstrução pós-guerra. No entanto, a realidade atual é distinta. A obsessão pelo crescimento do PIB ignora a riqueza ecológica. Essa negligência causa sérios prejuízos à sociedade e à prosperidade a longo prazo. Portanto, precisamos mudar nosso foco. Devemos adotar métricas alternativas. Essas métricas devem incorporar o capital social e natural como indicadores cruciais da riqueza e da saúde de uma nação. Caso contrário, viveremos em um ciclo de crises cada vez piores.
Um conceito promissor é o da riqueza ecológica. O Projeto de Dados Abertos mensura a pegada ecológica dos países. Essa métrica considera a ocupação do solo, emissões de carbono, uso de terras agrícolas, pesca, produtos florestais e pastagens. Aplicando essa métrica, o Catar necessitaria de 8,69 Terras se todos vivessem como seus habitantes. Ruanda, por outro lado, precisaria de apenas 0,37 Terras.
Outra iniciativa relevante é a ideia de uma economia rica. Liderado pelo Instituto Bennett, esse projeto integra o capital social e natural ao sistema financeiro. A proposta é que a economia seja guiada por um painel de seis indicadores. Esses indicadores medem ativos essenciais para a prosperidade global: capital físico, financeiro, intangível, humano, natural e social. Assim, a gestão econômica seria mais abrangente e sustentável do que a mera busca pelo crescimento do PIB. Assim, ao refletirmos sobre o Dia da Sobrecarga da Terra, é crucial agir. Devemos abandonar a mera discussão e implementar mudanças concretas. Os argumentos em favor de novas métricas não são inéditos. No entanto, o momento de agir é agora.
Nas palavras do Secretário-Geral da ONU, António Guterres: “Agora é o momento de corrigir um ponto cego flagrante na forma como medimos a prosperidade económica e o progresso. Quando os lucros vêm à custa das pessoas e do nosso planeta, ficamos com uma imagem incompleta do verdadeiro custo do crescimento económico.” Precisamos ir além do PIB. Urge adotar uma visão de prosperidade que considere os limites do planeta e o bem-estar de todos. Essa é a chave para um futuro sustentável e equitativo.
















